Piolho: Usa o cabelo em crista, veste um blusão de cabedal preto amolecido pelas noites ao relento, veste calças justas com um cinto de picos metalizados, uma t-shirt velha que diz "I am an anarchist" e calça botas altas de biqueira redonda. Dá o primeiro passo sem medo, levanta a cara castigada de piercings e salta para os carris. Segue em linha recta o rasto do comboio, dá pontapés nas pedras e carrrega uma mochila vazia e pesada. Enrola e desenrola cigarros, fica cansado, não salta, rebola na descida e deita-se no chão saciado do caminho.
Nenhuma: Tem o pescoço comprido, o queixo espetado, a cabeça presa. Tem cabelos escorregadios, finos, lisos e madeixas de dois tons. O corpo torce-se a oriente como um girassol ainda discreto na madrugada. Nenhuma é muda e veste-se de preto. Nenhuma usa umas socas de meio salto mesmo com collants de vidro preto, não usa mala, não usa chapéu de chuva, não fuma, não tem frio, não tem calor. Nenhuma gira os olhos no contorno do sol e senta-se à espera do meio dia.
A anomalia é magra e sofisticada, com um ar francês, como se ditasse o comportamento dos outros. É vagamente pedante, mas tem um conhecimento profundo do mundo, dos detalhes, mesmo que nunca tenha viajado para muito longe. A anomalia é a preto e branco. Usa galochas e gosta de chuva. Odeia o Verão. Tudo a satura. Tem olhos castanhos esverdeados, indefinidos, vagos e cheios de histórias, mesmo que ela não as conte. As pernas magras percorrem as ruas duma cidade europeia com convicção. Conhecem caminhos e pessoas. A anomalia não sabe nada do mundo e há-de acabar por perder-se, sozinha, com ilusões. Eu não conheço a anomalia. Ela é volátil. E tudo isto e é o oposto.
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